segunda-feira, junho 21, 2010

Barbeado blog

Hoje me olhei no espelho e percebi uma coisa: estava a cara do Rob Zombie ( ou Bin Laden, Primo It, Chewbacca, Pé Grande, pseudo-comunista, Lobisomem, enfim.... você decide).
Percebi que estava na hora de ir cortar o cabelo e fazer a barba após 4 meses de "boicote" à tesoura.
Pensei em ir à um salão de cabeleireiro perto de casa, mas lembrei da última vez que fui em um: Ter que botar a cabeça dentro daquele tanque, passar shampoo, e ter o cabelo alisado, depois passa secador, e corta aqui, corta ali, pergunta se está bom, e corta mais... ARGH
Decidi pelo óbvio, ir ao barbeiro.
Mulheres e metrosexuais ( bichas que não se assumem) não entendem essa preferência masculina pelo barbeiro. É algo complexo na verdade.
Começa pelo ambente único, aquele salão com suas cadeiras antigas e aqueles velhinhos em pé com um jaleco branco com uma tesoura, um pente e uma navalha no bolso. Música antiga tocando no rádio, alguns clientes esperando a vez, ventilador que faz barulho, gente que está sempre lá pra bater papo com os barbeiros mas não vai cortar o cabelo, o garoto que engraxa sapatos... e por aí vai.
Espero uns 10 minutos e chega a minha vez. Me levanto, cruzo o salão com piso xadrez ( clássico) e me sento naquela cadeira antiga, porém confortável, de frente pro espelho com algumas fotos de família e o escudo do time dele.
Ele sempre pergunta "Como vai ser?" e a gente sempre responde "Dá uma abaixada no cabelo" ou "Corta ae". Não precisa explicar mais nada, parece que ele lê a mente e faz do jeito que você quer. Eu só disse "Abaixa o cabelo e faz a barba, mas deixa um cavanhaque por favor" e foi o suficiente.
Quando ele começa a cortar surgem os papos, barbeiro adora papear. E o pior, eles parecem oniscientes, pois sabem de tudo e sabem conversar sobre tudo, é incrível. Eles são mais bem informados que grandes empresários ou jornalistas.
Após ficar bem informado sobre os fatos do mundo, meu cabelo está cortado. Ele passa uma loção ali no pé do cabelo, bem na nuca onde é raspado um pouquinho. Isso arde pacas, mas ajuda a fechar os poros ali. E depois joga um talco. Talco... só no barbeiro ou num berçário eu vejo isso. Vai ver esse é um dos fatores que fazem com que os homens gostem de ir lá, nostagia.
Depois vem a barba. A cadeira é reclinada e ele passa espuma com um pincel de barba no nosso rosto. Mais um ponto positivo, nesses tempos de espuma de barbear já pronta dentro de spray dá sempre uma certa saudade da época que tinhamos que misturar aquela pasta na água e passar no rosto com o pincel.
Após isso, ele começa a passar a navalha. Mais dois pontos positivos:
1) Homem gosta de viver perigosamente. Quer coisa mais perigosa que confiar em um sujeito que está passando uma navalha afiada perto da sua garganta?

2) Por melhores que sejam as lâminas de barbear que usamos em casa, nada supera uma navalha.

Barba feita, vem a provação final: Pedra ume passada no rosto. Arde como se fosse pimenta nos olhos, mas ninguém ousa demonstrar dor. Mais um ponto positivo, nossa masculinidade é afirmada.

Pois é... saí de lá com o cabelo e a barba espalhados pelo chão com piso xadrez da barbearia, sentindo a brisa no rosto como eu não sinto à 4 meses.
Daqui a mais ou menos 2 meses eu volto lá, pra mesma antiga barbearia, com as mesmas cadeiras antigas e com o mesmo velho barbeiro que até do meu avô fez a barba.



sexta-feira, junho 18, 2010

Saramaguiano Blog

Não é segredo que sou um fã de José de Sousa Saramago, o filho de pais analfabetos que ganhou um Nobel de Literatura e que há uma semana deve ter recebido uma carta com envelope roxo.
Não vou escrever uma mini-biografia sobre ele aqui, isso qualquer um consegue ler indo numa Wikipédia, e sim fazer uma singela homenagem.
Conheci a obra de Saramago quando um primo português veio nos visitar e trouxe de presente um livro chamado “A Caverna”. Comecei a ler, primeiro estranhando a forma como as frases são separadas, como os diálogos ocorrem e achando muito estranho... até o momento que li em voz alta! A partir do momento que me acertei com a escrita de Saramago, foi muito mais fácil me aventurar pela história de um oleiro misturada ao “mito” da Caverna, de Platão.
A partir daí, virei um fã do velhinho! Parti para ler “As intermitências da Morte”, que conta uma história interessante sobre quando a Morte decide parar de matar. Sim, cansada de ser mal vista, incompreendida, ela decide que ninguém mais, num certo país, irá morrer. Imaginem os problema que isso não causou?
Depois disso, li “Cegueira”. Acho que esse não preciso mencionar. Quem ainda não viu o belo filme de Fernando Meirelles?
O seguinte foi “A história do cerco de Lisboa”, onde um revisor de textos, num rompante de tédio, decide mudar a história das Cruzadas, e ao mudar uma frase num texto sobre elas, acaba transformando Lisboa atual numa cidade islâmica.
Um dos meu favoritos é "A jangada de pedra", uma história em que a Península Ibérica simplesmente se desprende do resto da Europa e passa a navegar pelo Atlântico. Surreal!!
Mas, de longe, meu livro favorito do velhinho é “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Ousado. Herege. Mas PERFEITO. Mostrando um Jesus mais humano, e analisando por outra ótica certos fatos da Bíblia, Saramago criou um livro perfeito, que foi proibido em Portugal, sua terra natal, e fez com que ele, magoado, se mudasse para as Ilhas Canárias.
Não tem jeito, hoje ao saber do ocorrido fiquei triste de verdade, como se alguém próximo tivesse morrido. E ele não deixa de fazer parte da minha história, pois foi num fórum sobre Saramago que conheci minha esposa, e, como num conto de realismo fantástico, bem Saramaguiano, um casal se conhece e se apaixona, mesmo morando à léguas de distância.

Termino aqui com um pequeno trecho do primeiro livro de Saramago que li, e que até hoje diz muito sobre mim.

"...dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo,
como se conhecer-se a si mesmo não fosse
a quinta e mais dificultosa operação
das aritméticas humanas..."

José Saramago - A Caverna