Pular para o conteúdo principal

Saramaguiano Blog

Não é segredo que sou um fã de José de Sousa Saramago, o filho de pais analfabetos que ganhou um Nobel de Literatura e que há uma semana deve ter recebido uma carta com envelope roxo.
Não vou escrever uma mini-biografia sobre ele aqui, isso qualquer um consegue ler indo numa Wikipédia, e sim fazer uma singela homenagem.
Conheci a obra de Saramago quando um primo português veio nos visitar e trouxe de presente um livro chamado “A Caverna”. Comecei a ler, primeiro estranhando a forma como as frases são separadas, como os diálogos ocorrem e achando muito estranho... até o momento que li em voz alta! A partir do momento que me acertei com a escrita de Saramago, foi muito mais fácil me aventurar pela história de um oleiro misturada ao “mito” da Caverna, de Platão.
A partir daí, virei um fã do velhinho! Parti para ler “As intermitências da Morte”, que conta uma história interessante sobre quando a Morte decide parar de matar. Sim, cansada de ser mal vista, incompreendida, ela decide que ninguém mais, num certo país, irá morrer. Imaginem os problema que isso não causou?
Depois disso, li “Cegueira”. Acho que esse não preciso mencionar. Quem ainda não viu o belo filme de Fernando Meirelles?
O seguinte foi “A história do cerco de Lisboa”, onde um revisor de textos, num rompante de tédio, decide mudar a história das Cruzadas, e ao mudar uma frase num texto sobre elas, acaba transformando Lisboa atual numa cidade islâmica.
Um dos meu favoritos é "A jangada de pedra", uma história em que a Península Ibérica simplesmente se desprende do resto da Europa e passa a navegar pelo Atlântico. Surreal!!
Mas, de longe, meu livro favorito do velhinho é “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Ousado. Herege. Mas PERFEITO. Mostrando um Jesus mais humano, e analisando por outra ótica certos fatos da Bíblia, Saramago criou um livro perfeito, que foi proibido em Portugal, sua terra natal, e fez com que ele, magoado, se mudasse para as Ilhas Canárias.
Não tem jeito, hoje ao saber do ocorrido fiquei triste de verdade, como se alguém próximo tivesse morrido. E ele não deixa de fazer parte da minha história, pois foi num fórum sobre Saramago que conheci minha esposa, e, como num conto de realismo fantástico, bem Saramaguiano, um casal se conhece e se apaixona, mesmo morando à léguas de distância.

Termino aqui com um pequeno trecho do primeiro livro de Saramago que li, e que até hoje diz muito sobre mim.

"...dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo,
como se conhecer-se a si mesmo não fosse
a quinta e mais dificultosa operação
das aritméticas humanas..."

José Saramago - A Caverna

Comentários

  1. Bela homenagem Alexandre!

    ResponderExcluir
  2. aah que legal, você gostava mesmo ;~ parabééns !

    ResponderExcluir
  3. Não só a literatura portuguesa perdeu um grande nome (vivo, pois viverá sempre nas suas palavras), mas toda uma geração que cresceu lendo Saramago. Parabéns pela homenagem.

    ResponderExcluir
  4. Primeiro eu fiquei triste com a notícia. Logo pela manhã, assim que abri o site do globo. E o resto do dia lembrei de você pra caramba, lá do trabalho não dá pra acessar blog nenhum. Mas eu tinha certeza que você teria preparado algo. Belíssimo texto. Assim como ele, também tive pena de vê-lo morrer.

    ResponderExcluir
  5. Não li quase nada de Saramago, mas sei da imensa contribuição que ele deixou para a literatura. Perde-se a pessoa, mas o escritor viverá para sempre.

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. pARBÉNS, bELA hOMENAGEM!!! ÓTIMO BLOG E TE DOU UMA DICA, TENTA ACHAR UM TEMPLATE LEGAL PRO SEU BLOG!

    Abs.

    Gabriel Nelson Koller

    Blog do Nelso, visita:
    www.blogdonelso.blogspot.com

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 47 ronin, parte 2: A hora da vingança.

Como dito no post anterior,  o daimyo Asano Naganori se viu obrigado a realizar o seppuku por ter ferido um superior no palácio do Shogun.
Tal notícia foi levada para Oishi Kuranosuke Yoshio, conselheiro de Asano, que assumiu o comando e levou a família Asano para longe, antes de cumprir as ordens do Shogunato e entregar o palácio e o feudo para agentes governamentais.
Dos mais de 300 homens de  Asano, 45, junto com o líder Oishi, recusaram-se a permitir que o seu senhor não fosse vingado, embora o Shogunato houvesse proibido a vingança nesse caso. Sim, haviam casos em que a vingança era tolerada.
Eles se uniram, fazendo um juramento secreto para vingar seu mestre matando o vacilão do Kira, mesmo sabendo que seriam punidos severamente por isso.
Só que o Kira tava bem guardado, e sua residência tinha sido fortificada e a segurança reforçada pois todo mundo sabia que os samurai eram meio doidos. Os ronin perceberam que teriam que esperar a poeira baixar antes que pudessem ter uma peque…

"Cheio de Ki" blog

Você tem dificuldade em entender como funciona um moinho de vento? Ou como água vira vapor? Ou porque algo queima quando fica muito quente? Você pode até não saber aquelas fórmulas e cálculos da aula de física, mas sabe mais ou menos como o trem funciona e o que há de comum neles todos, não? Pois é, energia. Então, por que raios mistificar a palavra japonesa “Ki”? Pois é basicamente o que ela significa. Nós ocidentais costumamos ter certa dificuldade pra entender termos japoneses (orientais em geral na verdade) e, a maneira japonesa de se expressar acaba dificultando o nosso entendimento também. No caso do “Ki”, levamos o troço pra um nível esotérico, místico e imaginamos ser uma energia interna que nos faz soltar Hadoukens, ou algo como a Força em “Star Wars”. Nos parece um termo que só é utilizado por algum coroa igual ao Pai Mei, isolado em alguma montanha no lugar mais isolado, mas na verdade é um termo bem comum. Por exemplo: 磁気 (JIKI) , nos remete ao magnetismo. 電気 (Denki),…

Natalino Blog

Então, é Natal. Época de paz, confraternização, respeito, religiosidade, harmonia, solidariedade e muitas outras palavras bonitas. Resumindo, é epóca de hipocrisia.
Não, eu não sou contra o Natal e não, não sou contra as pessoas serem pacíficas, fraternais, respeitosas, religiosas, harmônicas, solidárias e outros adjetivos bonitos. Mas seria interessante se fossem assim o ano todo.
Mas o meu problema com Natal é outro. Meu problema com o Natal se resume simplesmente à atmosfera natalina. Minha dúvida é: Todo maldito lugar tem que ficar tocando música natalina????
Porra, eu juro que não aguento mais musiquinha de harpa, "Jingle bells" em ritmo de gospel music, Simone cantando música natalina, malditos brinquedinhos chineses tocando a mesma música em todos os camelôs... além da decoração. Juro que não aguento ver mais pinheiros, sininhos e guirlandas. Aliás, pra quem é alto esse problema fica ainda pior, pois toda hora damos uma cabeçada em alguma guirlanda. Aliás, uma dúvida que…