sexta-feira, janeiro 27, 2017

Kitânico Blog 3, o Desafio Final.




Nessa minha última ida ao festival de Takeshi Kitano na Caixa cultural eu revi "Zatoichi" de 2003. Adoro esse filme, tenho o DVD e sou fã do personagem.
 Zatoichi é um dos personagens de ficção mais conhecidos na literatura do Japão e TV. O personagem foi criado pelo escritor Kan Shimozawa e depois foi adaptado para a TV pelo Daiei Studios e originalmente interpretado por Shintaro Katsu.
 Zatoichi aparece como um anma san (massagista) cego que vagueia ganhando a vida realizando suas massagens, acupuntura e jogando dados. No entento, ele é um excelente espadachim do estilo Muraku-Ryu de kenjutsu e iai e também mostra habilidades em Sumo, taijutsu e kyujutsu.
 Ele não carrega uma katana comum, e sim uma shikomizue (espada disfarçada de bengala). Ou seja, ele passa a imagem de um massagista cego completamente indefeso. Isso, pra mim, é genial.
Então, Kitano sempre foi um fã de Chanbara (o nome original dos filmes de samurai) e nada melhor que esse personagem icônico pra fazer uma homenagem. A história é ambientada no período Edo, onde Zatoichi tropeça em uma pequena cidade remota. Dois grupos de yakuza estão lutando pelo poder, abusando de aldeões comuns no processo (lembrando o "Yojimbo" de Kurosawa). Lá ele encontra duas gueixas conspirando vingança contra um desses grupos que matou sua família; um atrapalhado mas bondoso jogador  de dados e sua tia hospitaleira além de um habilidoso ronin tentando salvar sua esposa doente e ao mesmo tempo se provar como samurai. Com um forte senso de justiça e extrema habilidade,  Zatoichi ajuda os aldeões para livrar a cidade de gangsters.
O "Zatoichi" de Kitano não é como um chanbara de Kurosawa. Até mesmo porque não haveria como comparar. Na verdade ele é mais satírico, sarcástico e todo o filme leva o toque de humor de Kitano. O próprio personagem não se parece com o original. Ele é loiro, usa uma bengala vermelha e se veste razoavelmente bem. O original tinha uma estética extremamente simples, e parecia um mendigo cego em vários momentos.
As coreografias estão LINDAS. Uma cena onde o ronin precisa eliminar um chefe Yakuza está SOBERBA. E o Zatoichi (interpretado por Beat Takeshi :p )emprega uma ferocidade e habilidade excepcionais nos golpes.Isso sem falar no sangue jorrando. Era CGI, embora Kitano não curta usar efeitos digitais mas nesse caso ele abriu mão por 2 motivos. O primeiro, para não ficar gore demais. Ele queria sim, sangue, mas sem aquela coisa dele se espalhar pelo chão, sangue escorrendo loucamente e afins. Segundo, ele com seu toque poético quis que o sangue jorrando parecesse com pétalas de sakura ao vento. E conseguiu.
Se tem um remake que recomendo, é esse.

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Kitânico Blog 2, a Missão.





監督·ばんざい (Kantoku. Banzai!) ou "Glória ao cineasta!" é um filme autobiográfico de Kitano. É o segundo da trilogia autobiográfica, iniciada com Takeshis e terminada com Aquiles e a Tartaruga. Neste ele usa uma forma meio "Monty Python's The Meaning of Life", com várias esquetes meio com uma certa ligação entre si para contar criativamente sobre como um hiato criativo o está atacando. 
 É um filme bem difícil de descrever, é meio como se Ed Wood e Stanley Kubrick se juntassem numa só pessoa e fizesse um filme. E atuasse. E usasse um boneco de fibra como dublê. A forma como ele narra usa recursos propositalmente toscos de computação gráfica, pessoas agindo como se estivessem em anime e hilárias autocríticas a seu estilo e sua fixação por violência e Yakuza. 
Resumindo: Takeshi Kitano, interpretado por Beat Takeshi (Sim, são personalidades distintas) busca desesperadamente um novo gênero que trará o público de volta aos cinemas, visto que seus filmes nunca foram sucesso de público, tirando Zatoichi. Ele experimenta uma variedade de parcelas que vão desde o Yakuza (que ele desiste por já ter feito vários), romance (que ele desiste por não ter achado graça), o drama de época ( que ele acha melhor não filmar, pois no Japão de sua infância crianças eram espancadas e obrigadas a trabalhar), Chambara ( que ele desiste por não ser novidade e ter filmado Zatoichi), terror (estilo Ringu) e cinema lento de Ozu (Sobre um pintor cego, mas ninguém na produção sabia como seria uma pintura de um cego).  Em seguida entra a história de uma dupla mãe-filha que tentam enganar um homem rico. Beat é seu braço direito, e ele frustra as tentativas das mulheres, salvando a humanidade no processo!

Eu destaco uma cena particularmente engraçada dessa dupla de mãe e filha tentando dar um golpe num restaurante administrado por 2 lutadores de Puroresu. Hilário.


sábado, janeiro 21, 2017

Kitânico Blog





あの夏、いちばん静かな海 "Ano natsu, ichiban shizukana umi (O mar mais silencioso daquele verão)", de 1991, filme dirigido e escrito por Takeshi Kitano, famoso por seus filmes violentos geralmente sobre a Yakuza e que estrelou e dirigiu um Zatoichi que fazia até o sangue jorrando ser bonito. "Uma cena à beira mar" (nome dado aqui no Brasil e em Portugal) mostra o Kitano poético, bem humorado e metafórico de sempre, só que sem a violência habitual. Imaginei que seria chato de se assistir mas, não, o filme cativa. 
O filme se passa em uma cidadezinha litorânea no Japão onde vivem Shigeru, um catador de lixo surdo-mudo e sua namorada Takako, também surda-muda. Certo dia Shigeru estava recolhendo lixo pelas ruas da cidade quando encontra uma prancha de surf quebrada. Ele fica fascinado por ela e acaba a levando pra casa e a consertando. A partir desse momento, ele faz do surf um ideal para dar sentido à sua vida, ignorando totalmente o amor de Takako, que o segue para todos os lugares. O filme preza pelo silêncio e os poucos diálogos. As cenas são quase sempre contemplativas, focando o mar. Claude Maki e Hiroko Oshima estão primorosos.

 A trilha sonora de Joe Hisaishi (que fez muitos trabalhos com o Hayao Miyazaki) te envolve completamente.

A cena do ônibus, com Takako em pé e Shigeru correndo nas ruas com a prancha debaixo do braço, é, basicamente, linda.