Pular para o conteúdo principal

Milenar Blog


  Definição de “milenar” no Michaelis: adj (lat millenariu) 1 Que diz respeito ao milhar. 2 Que contém mil. 3 Que tem mil anos; milenar. sm 1 Espaço de mil anos.



Dada a definição, dou início ao meu texto aleatório com algo que observei: As pessoas tendem a achar que “milenar” é sinônimo pra algo oriental com mais de 40 anos, principalmente se for relacionado às artes marciais. Sempre escuto alguém falar “a milenar arte do taekwondo” ou “o milenar Judo” e similares e fico me perguntando de onde eles tiraram isso.

A grande maioria das artes marciais praticadas hoje em dia é mais recente do que a  maioria das pessoas consegue imaginar.  Vejamos uns exemplos:

Aikido – Morihei Ueshiba começou a desenvolver o que hoje chamamos de Aikido nos anos 30. Há quem force a barra citando o Daitō-ryū Aiki-jūjutsu, arte que Ueshiba treinou, pra validar a “milenaridade”.  Só que Sokaku Takeda fundou este sistema no século XIX. Ou seja, não tem mil anos.

Karate – Desenvolvido em Okinawa (que era um reino, e agora faz parte do Japão, mas isso fica pra algum texto futuro. Ou não) e seus registros mais antigos datam do século XIV, quando Okinawa iniciou relações comerciais com a China (Sim, originalmente karate significa “Mão chinesa”). Mais de 500 anos, forçando a barra. Menos de 1000. Não é milenar.

Taekwondo – Fundado em 1955 na Coréia. Há quem force a barra falando das antigas artes coreanas, mas o taekwondo é basicamente karate. Inicialmente, hoje já tem vida própria. Mas longe de ter 1000 anos.

Muay Thai – Registros levam até, no máximo, ao século XV. Se forçarem a barra com o Muay Boran, aí vira milenar.

Judo – Criado em 1822 por Jigoro Kano. Podem forçar a barra com os estilos de jujutsu que ele treinou, mas mesmo assim ganha no máximo uns 400 anos. Não é milenar.

Hapkido – Veio do Aikido, e não do Daitō-ryū Aiki-jūjutsu como eles gostam de dizer. De qualquer forma, não seria milenar.

Kendo – Suas raízes datam no máximo ao século XVII, mas formalizado como está hoje, data dos anos 20. É um gendai budo, ou seja, arte marcial moderna. Não é milenar.

Kung-fu  - Termo genérico pras artes marciais chinesas. Dependendo do sistema pode ser milenar ou não.

Capoeira – Porra, o Brasil não tem 1000 anos.

Boxe – Olha, surpreendam-se. Seus registros datam de 688 AC. Milenar até o talo.


Mas a grande doidera vem do Brazilian Jiu-jitsu. Seus praticantes vem com o papo de era uma arte praticada por monges indianos. Isso explicaria o nome num Japonês errado.  E seria uma cena curiosa ver os mongezinhos indianos puxando o adversário pra guarda, passando o carro e finalizando. Mas não, é lorota. Há quem diga que ainda por cima foi dividido em Karate (socos e chutes), Judo (projeções) e Aikido (torções), e que só o Brazilian Jiu-jitsu é completo. Burrice, só isso. A bem da verdade os irmãos Gracie aprenderam o sistema com Mitsuyo Maeda, aluno de Jigoro Kano e Tsunejiro Tomita, da Kodokan. Ou seja, é Judo. “Mas por que se chama jiu jitsu?”. Porque na época o Judo se chamava “Kano ryu jujutsu”. Aí, sei lá, Carlos Gracie ouviu errado e entendeu “Jiu jitsu”. Não tenho culpa se ele não limpava os ouvidos.

Ainda quero entender essa fascinação em dizer que o sistema que você treina é milenar. E mais, há quem tenha orgulho em dizer que o tal sistema está inalterado há mais de sei lá quantos séculos. Não consigo compreender. Peguemos como exemplo o Boxe, que é, de longe, o mais antigo. Evolui constantemente. Pegue um vídeo de lutas antigas, dos anos 50, por exemplo. Mantém-se a “essência”, mas é mais do que nítida a mudança. E um pugilista não se orgulha de socar como um pugilista dos anos 50 socava, ele não está nem aí pra isso. E noto esse orgulho sem sentido na maioria dos sistemas marciais que se orgulham de ser milenares sem ser.


Errata:
Como explicou o sifu Marco Rodrigues:

"Vale lembrar que não existe nenhum estilo atual de Kung Fu milenar. As escolas de punho só apareceram em 1600. Mesmo o Shuai Jiao não possui uma linhagem definida. O que por ser também um termo genérico para técnicas de arremesso, consequentemente abrangendo métodos diferenciados, então seriam artes marciais diferentes com o mesmo nome. O que não é de maneira alguma um fato isolado na China, ocorre até hoje."







Comentários

  1. Caro amigo,

    Acho seu comentário um pouco simplório. Você deve lembrar que nenhuma arte marcial surgiu da noite para o dia, mas sim formou-se de um longo processo. Assim, quando alguém se refere à milenaridade de alguma arte marcial, creio que esteja considerando os anos gastos no desenvolvimento das várias artes que culminaram em sua formação. Não acredito que as pessoas ignorem que as artes marciais modernas são bastante recentes e que estão em constante evolução. Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu caro, se for assim as artes marciais surgiram quando um Australopiteco deu sua primeira porrada.

      Excluir
    2. Exatamente, assim é fácil. Bastou alguém aprender um soco ou chute e pronto, nasceu a primeira arte marcial no mundo.

      Excluir
  2. Bom artigo meu amigo Alexandre!

    ResponderExcluir
  3. Anônimo6:39 PM

    Otimo artigo

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Vale lembrar que não existe nenhum estilo atual de Kung Fu milenar. As escolas de punho só apareceram em 1600. Mesmo o Shuai Jiao não possui uma linhagem definida. O que por ser também um termo genérico para técnicas de arremesso, consequentemente abrangendo métodos diferenciados, então seriam artes marciais diferentes com o mesmo nome. O que não é de maneira alguma um fato isolado na China, ocorre até hoje.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, boa! Mais tarde coloco uma errata! Valeu!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 47 ronin, parte 2: A hora da vingança.

Como dito no post anterior,  o daimyo Asano Naganori se viu obrigado a realizar o seppuku por ter ferido um superior no palácio do Shogun.
Tal notícia foi levada para Oishi Kuranosuke Yoshio, conselheiro de Asano, que assumiu o comando e levou a família Asano para longe, antes de cumprir as ordens do Shogunato e entregar o palácio e o feudo para agentes governamentais.
Dos mais de 300 homens de  Asano, 45, junto com o líder Oishi, recusaram-se a permitir que o seu senhor não fosse vingado, embora o Shogunato houvesse proibido a vingança nesse caso. Sim, haviam casos em que a vingança era tolerada.
Eles se uniram, fazendo um juramento secreto para vingar seu mestre matando o vacilão do Kira, mesmo sabendo que seriam punidos severamente por isso.
Só que o Kira tava bem guardado, e sua residência tinha sido fortificada e a segurança reforçada pois todo mundo sabia que os samurai eram meio doidos. Os ronin perceberam que teriam que esperar a poeira baixar antes que pudessem ter uma peque…

Kitânico Blog 2, a Missão.

監督·ばんざい (Kantoku. Banzai!) ou "Glória ao cineasta!" é um filme autobiográfico de Kitano. É o segundo da trilogia autobiográfica, iniciada com Takeshis e terminada com Aquiles e a Tartaruga. Neste ele usa uma forma meio "Monty Python's The Meaning of Life", com várias esquetes meio com uma certa ligação entre si para contar criativamente sobre como um hiato criativo o está atacando. 
 É um filme bem difícil de descrever, é meio como se Ed Wood e Stanley Kubrick se juntassem numa só pessoa e fizesse um filme. E atuasse. E usasse um boneco de fibra como dublê. A forma como ele narra usa recursos propositalmente toscos de computação gráfica, pessoas agindo como se estivessem em anime e hilárias autocríticas a seu estilo e sua fixação por violência e Yakuza. 
Resumindo: Takeshi Kitano, interpretado por Beat Takeshi (Sim, são personalidades distintas) busca desesperadamente um novo gênero que trará o público de volta aos cinemas, visto que seus filmes nunca foram suces…

Kitânico Blog 3, o Desafio Final.

Nessa minha última ida ao festival de Takeshi Kitano na Caixa cultural eu revi "Zatoichi" de 2003. Adoro esse filme, tenho o DVD e sou fã do personagem.
 Zatoichi é um dos personagens de ficção mais conhecidos na literatura do Japão e TV. O personagem foi criado pelo escritor Kan Shimozawa e depois foi adaptado para a TV pelo Daiei Studios e originalmente interpretado por Shintaro Katsu.
 Zatoichi aparece como um anma san (massagista) cego que vagueia ganhando a vida realizando suas massagens, acupuntura e jogando dados. No entento, ele é um excelente espadachim do estilo Muraku-Ryu de kenjutsu e iai e também mostra habilidades em Sumo, taijutsu e kyujutsu.
 Ele não carrega uma katana comum, e sim uma shikomizue (espada disfarçada de bengala). Ou seja, ele passa a imagem de um massagista cego completamente indefeso. Isso, pra mim, é genial.
Então, Kitano sempre foi um fã de Chanbara (o nome original dos filmes de samurai) e nada melhor que esse personagem icônico pra fazer …